terça-feira, 12 de agosto de 2008

A educação, a sala de aula, os professores, os alunos e os pais.

Meu nome é Sally Tilelli e trabalhei como professora durante muitos anos (quase 20, para ser mais específica). Contudo, recentemente decidi parar de lecionar e me dedicar à minha empresa – a Sieben Gruppe – onde realizo trabalhos de tradução, revisão textual, entre outros. Quando decidi abrir meu próprio negócio, juntamente com minhas sócias (e também irmãs), lembro da felicidade e do alívio que senti por não mais precisar enfrentar o trânsito enlouquecedor de nossa cidade (SP), o barulho ensurdecedor e a violência sem limites que assola os paulistanos em cada esquina, em cada semáforo. Ah, que delícia trabalhar em casa, no meu próprio escritório, ouvindo música francesa, tomando limonada geladinha – just perfect! Porém, lendo uma reportagem da edição 2063 da revista “Veja” de 04 de Junho de 2008, percebi que o que me levou desistir de lecionar, não foram os problemas externos à sala de aula, e sim os que ocorreram e, ainda ocorrem, dentro dela e em várias escolas. Antigamente, quando eu era aluna do primário, ginásio (ou seja, há muuuuuuuuuuuuito tempo), o relacionamento entre professores, estudantes e pais, era completamente diferente. Havia profundo respeito por parte dos pupilos e de seus progenitores em relação aos mestres que, pelo menos em sua esmagadora maioria, eram dotados de amplo conhecimento teórico e prático. Conseguiam compartilhar seu saber com os mais jovens, preparando-os para tornarem-se profissionais bem sucedidos e, acima de tudo, verdadeiros seres humanos – no sentido mais fiel da palavra. Tínhamos orgulho de mencionar os nomes de nossos professores, pois haviam sido eles os responsáveis por lapidar e enriquecer nosso conhecimento. Muitos haviam inclusive ensinado os pais de seus atuais alunos. O outro fator era o comprometimento de nossos pais com o ensino. Eles conheciam seus filhos e sabiam o quanto era importante apoiar o professor, mesmo quando isso significava dar um bom puxão de orelha no rebento.
Por que estou escrevendo tudo isso? Hoje, apesar de amar minha profissão, já não sinto o menor interesse pela sala de aula. É terrível dizer isso, mas o fato é que me deparei com uma realidade aterradora: atualmente, nós professores, pelo menos segundo uma grande parte da sociedade – de forma consciente ou não – nos tornamos profissionais despreparados e, portanto, dispensáveis e facilmente substituíveis. Voltando à mesma reportagem publicada pela revista Veja, o número de professores que chegam às salas de aula sem o menor preparo para lecionar é inaceitável. É difícil para o profissional que ama o ensino, dividir espaço e, até mesmo cedê-lo a novos professores que chegam às escolas, cada vez menos preparados. Observe abaixo alguns dados importantes informados pela Veja: dos 260 mil professores que participaram de concursos públicos, nas 4 maiores redes de ensino do país, ou seja, MG, PE, RJ e SP, 73% foram reprovados nos testes básicos nas áreas em que pretendiam ensinar, dentre as quais matérias importantíssimas, como o português e a matemática. O problema não termina aí, pois boa parte dos que foram aprovados, 27%, passou nesses testes com as notas mínimas necessárias. O exemplo mais assustador é de PE. Dos 4.352 candidatos que prestaram exames, apenas 34 conseguiram responder questões elementares de geometria e álgebra, ou seja, 0.8% dos participantes. O pior é saber que a grande maioria já leciona! O que está acontecendo com nossos professores? Precisamos analisar vários aspectos:
1- O péssimo nível do ensino superior voltado para a formação de professores em nosso país é, sem dúvida, um dos maiores responsáveis por esta situação. Ainda segundo a revista Veja, somente 1% dos candidatos atinge nota máxima na avaliação final. Bem, se os professores não aprendem, como podem ensinar, não é?
2- Pesquisas mostram claramente que aqueles que optam por trabalhar dentro de salas de aula em nosso país, são, geralmente, os piores alunos de suas classes. Enquanto que nos paises desenvolvidos, os que escolhem lecionar encontram-se entre os 10% que obtiveram as melhores notas como alunos.
3- A maioria dos professores no Brasil vem de famílias das quais os pais sequer terminaram o ensino fundamental. Eles enfrentaram inúmeras dificuldades para obter seus diplomas e hoje sofrem ainda mais devido aos baixos salários e à necessidade de trabalhar em vários empregos.
4- Para a grande maioria de nossos professores, o sonho não está dentro de uma sala de aula. Os que ensinam matérias como física, química, ciências, muitas vezes gostariam de se dedicar ao trabalho de pesquisas em grandes laboratórios, realizar pesquisas de campo, mas por falta de recursos e incentivos nessas áreas, acabam aceitando o trabalho a frente de 40 alunos por sala que estão, geralmente, desmotivados. Este é, aliás, outro problema sério que discutiremos mais tarde.
5- Muitas escolas deixaram de ser tratadas como templos sagrados do ensino e são hoje gerenciadas como empresas. Seus “diretores”, ou “administradores” instruem seus professores, a prepararem seus alunos única e exclusivamente para serem aprovados no vestibular. Não importa realmente se eles aprenderam para a vida, ou não. Existem várias instituições conceituadas que aplicam provas e simulados quase que diariamente. O intuito é conseguir fazer com que um número cada vez maior de “representantes” dessas escolas sejam aprovados na prova das provas – o vestibular. Que maravilha! Nossa escola teve um índice de aprovação de 97,3% - fantástico! Também, com o número de novas faculdades que surgem a cada esquina e com o tipo de teste que elas aplicam, quem não passa? Em muitos cursos livres, o problema é ainda mais grave, pois o professor é praticamente proibido de tomar qualquer atitude em relação à disciplina. Isso pode fazer com que os alunos (indisciplinados) e seus pais (muitos deles ausentes) sintam-se incomodados e desistam ou aceitem a desistência dos filhos. Os números caem e o professor perde o emprego. Neste caso, a indisciplina torna-se a regra, e não a exceção.
6- A falta de motivação dos alunos é outro fator importante. Não pense que somente os alunos de escolas públicas sofrem desse mal. Infelizmente, mesmo entre aqueles matriculados em escolas conceituadas, a motivação não é muito maior. A diferença está nas razões que levam o aluno a sentir-se desmotivado. Os provenientes de famílias mais humildes – que geralmente estudam em escolas públicas e na periferia – enfrentam problemas sérios em casa, como a falta de elementos básicos para o aprendizado (como livros, alimentação adequada, saúde), e até nos bairros em que moram (como a violência, as drogas, a falta de acesso ao transporte e à saúde etc). Os que têm melhores condições sofrem por outras razões. Seus pais, além de trabalharem 14 horas por dia, precisam ainda, desesperadamente, se manter em constante atualização por meio de cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado, línguas etc. Sem alternativa, relegam os “baixinhos” aos cuidados de terceiros. Não podemos esquecer também que, atualmente, um número crescente de crianças e adolescentes vive em lares incompletos devido ao alto índice de casais separados. Uma criança distante dos pais, nas mãos de um profissional mal preparado, torna-se o que chamamos de “problema” na escola (e futuramente, na sociedade). Surgem as reclamações dos dois lados. Muitos pais, por sentirem-se culpados pela ausência, cobrem os filhos de carícias positivas (o tênis mais caro, celulares de última geração etc) e muitos professores, sem treinamento para tais desafios, acabam perdendo o respeito de seus alunos, às vezes por completo. Não podemos esquecer também, que muitas vezes, para sentirem-se tranqüilos enquanto trabalham, vários pais literalmente “enfiam” os filhos em 10 cursos livres diferentes por dia (línguas, balé, teatro, RPG, filosofia avançada, web design, entre outros), para que estes não fiquem sozinhos em casa. Os professores nesses 10 cursos diferentes são obrigados a lidar com 90% de alunos que prefeririam estar no Iraque a ficar dentro daquela sala de aula. É claro que todos esses cursos são importantes, mas forçar o aluno a fazer coisas que ele não gosta já é demais. Coitado do professor e do aluno! Professores e educadores não são pajens! Eles estão lá para ensinar e não para suprirem a falta dos pais, tornando-se babás. Se os pais querem que seus filhos se tornem seres humanos de verdade, precisam ajudar a valorizar os professores, mas é claro que sempre cobrando deles e das instituições onde trabalham um nível de conhecimento adequado e postura profissional.
O ensino é uma coisa maravilhosa. É uma pena assistirmos em nosso país, diariamente, a decadência do ensino, a execração pública do professor como profissional e o verdadeiro homicídio doloso de nossa língua. É divertido andar pelas ruas e ver placas engraçadas, escritas de maneira errada, o problema é que não são somente estas placas de rua que estão repletas de erros gramaticais e ortográficos. Profissionais das mais diferentes áreas encontram dificuldades ao redigir textos, uma vez que não foram suficientemente treinados para isso. Um outro problema é a falta de leitura obrigatória em muitas escolas, ou até mesmo a leitura obrigatória de textos excelentes, mas que não agradam a 100% dos alunos – não há preocupação em atender aos diferentes alunos de forma mais individualizada, oferecendo-lhe opções de leitura dentro de gêneros variados. Alguns poucos podem até se apaixonar pela leitura, mas a grande maioria acaba se afastando desse hábito tão salutar. Isso se torna um circulo vicioso, pois a leitura é a base para se escrever bem!
É fundamental que medidas sejam tomadas no sentido de melhorar o nível de nossos professores e do ensino como um todo. Melhores salários, uma avaliação mais rígida, maior comprometimento dos pais em relação ao ensino de seus filhos, uma parceria mais forte entre pais e professores, maior coragem dos pais em dizer a seus filhos – Não, seu professor está certo! Você está errado! (se for o caso, é claro). Tudo isso poderá ajudar a melhorar o nível de nossos alunos, a formar professores e outros profissionais mais preparados. A nossa vida pode ser melhor, assim como a de nossos filhos, se a educação em nosso país tornar-se melhor.
Sally Tilelli
Sieben Blog

Um comentário:

Anônimo disse...

Ensinar é um dom, um talento especial. Ter um Professor ou uma Professora como você - apaixonada por sua arte - é um privilégio!